Escritos Compilados de Blavatsky, Volume II, p. 418

A TEORIA DOS CICLOS

[The Theosophist, Vol. I, no 10, julho de 1880, pp. 242-244]

Já faz algum tempo que essa teoria que foi proposta pela primeira vez na mais antiga religião do mundo, o vedantismo, ensinada depois por vários filósofos gregos, e posteriormente defendida pelos teosofistas da Idade Média, mas que veio a ser categoricamente negada pelos sábios do Ocidente, como tudo o mais, neste mundo de negação, vêm gradualmente ganhando destaque novamente. Desta vez, ao contrário da regra, são os próprios homens de ciência que a adotam. Estatísticas de acontecimentos da mais variada natureza são rapidamente coletadas e confrontadas com a seriedade exigida por importantes questões científicas. Estatísticas de guerras e dos períodos (ou ciclos) do aparecimento de grandes homens – pelo menos aqueles que foram reconhecidos como tais por seus contemporâneos, irrespectivamente de opiniões posteriores; estatísticas dos períodos de desenvolvimento e progresso em grandes centros comerciais; da ascensão e queda das artes e ciências; de cataclismos, como terremotos, epidemias; períodos de frio e calor extraordinários; ciclos de revoluções, e da ascensão e queda de impérios etc.; todos estes são submetidos, por sua vez, à análise dos cálculos matemáticos mais minuciosos. Por fim, até mesmo o significado oculto dos números em nomes de pessoas e de cidades, em eventos e assuntos semelhantes, recebe atenção incomum. Se, por um lado, grande parte do público instruído está aderindo ao ateísmo e ao ceticismo, por outro lado, encontramos uma corrente evidente de misticismo forçando seu caminho para a ciência. É sinal de uma necessidade irreprimível da humanidade de se assegurar que existe um Poder Supremo sobre a matéria; uma lei oculta e misteriosa que governa o mundo, e que nós devemos antes estudar e vigiar de perto, tentando nos adaptar a ela, do que cegamente negar, e bater nossa cabeça contra a rocha do destino. Mais do que uma mente reflexiva, ao estudar a sorte e reveses de nações e grandes impérios, ficou profundamente impressionada com uma característica idêntica em sua história, a saber, a inevitável recorrência de eventos históricos semelhantes, chegando por sua vez cada um deles, após o mesmo lapso de tempo. Essa analogia é encontrada entre os acontecimentos como substancialmente os mesmos no todo, embora possa haver mais ou menos diferença quanto à forma externa dos detalhes. Assim, a crença dos antigos em seus astrólogos, adivinhadores e profetas pode ter sido justificada pela verificação de muitas de suas previsões mais importantes, sem cujos prognósticos de acontecimentos futuros, implicariam necessariamente em algo muito milagroso em si mesmos. Os adivinhadores e augúrios, que ocupavam nas civilizações antigas a mesma posição ocupada agora por nossos historiadores, astrônomos e meteorologistas, não havia nada mais maravilhoso no fato de o primeiro prever a queda de um império ou a perda de uma batalha, do que no último prever o retorno de um cometa, uma mudança de temperatura ou, talvez, a conquista final do Afeganistão. A necessidade de ambas as classes serem observadores atentos aparte, havia o estudo de certas ciências a serem seguidas então, assim como são agora. A ciência de hoje terá se tornado uma ciência “antiga” daqui a mil anos. Livre e aberto, o estudo científico agora é para todos, enquanto era então confinado a poucos. No entanto, seja antigo ou moderno, ambos podem ser chamados de ciências exatas; pois, se o astrônomo de hoje extrai suas observações de cálculos matemáticos, o astrólogo de outrora também baseava seus prognósticos em observações não menos agudas e matematicamente corretas dos ciclos sempre recorrentes. E, porque o segredo desta ciência está agora sendo perdido, dá isso qualquer garantia em dizer que nunca existiu, ou que, para acreditar nela, é preciso estar pronto para aceitar “magia”, “milagres” e coisas do tipo? “Se, em vista da eminência alcançada pela ciência moderna, a reivindicação de profetizar acontecimentos futuros deve ser considerada como uma brincadeira de criança ou uma enganação deliberada”, diz um autor no Novoye Vremya, o melhor jornal diário de literatura e política de São Petersburgo, “então podemos apontar para a ciência que, por sua vez, agora retoma e registra a questão, em sua relação com acontecimentos passados, se há ou não na constante repetição dos acontecimentos uma certa periodicidade; em outras palavras, se esses acontecimentos se repetem após um período fixo e determinado de anos em cada nação; e se há uma periodicidade, se essa periodicidade é devida ao acaso ou depende das mesmas leis naturais, que são mais ou menos dependentes de muitos dos fenômenos da vida humana”. Sem dúvida, esta última. E o autor tem a melhor prova matemática disso no aparecimento oportuno de trabalhos como o do Dr. E. Zasse, sob análise crítica, e de alguns outros. Diversas obras eruditas, que tratam desse assunto místico, apareceram ultimamente, e de algumas dessas obras e cálculos, trataremos agora; mais prontamente como são na maioria dos casos da pena de homens de eminente erudição. Tendo já no exemplar de junho do The Theosophist me referido a um artigo do Dr. Blochvitz, “Sobre o Significado do Número Sete”, em todas as nações e povos – um artigo erudito que apareceu recentemente no jornal alemão Die Gegenwart – vamos agora resumir a opinião da imprensa em geral, sobre um trabalho muito sugestivo de um conhecido cientista alemão, E. Zasse, com algumas reflexões minhas. Acabou de aparecer no Prussian Journal of Statistics (Revista Prussiana de Estatística) e corrobora poderosamente a antiga teoria dos Ciclos. Esses períodos, que envolvem acontecimentos sempre recorrentes, começam com o infinitamente pequeno – digamos, uma rotação de dez anos – chegando a ciclos que requerem 250, 500 700 e 1000 anos, para efetuar sua revolução em torno de si mesmos e dentro uns dos outros. Todos estão contidos dentro da Mahâ-Yuga, o cálculo do Manu da “Grande Era” ou Ciclo, que por sua vez gira entre duas eternidades – os “Pralayas” ou Noites de Brahmâ. Como, no mundo objetivo da matéria, ou o sistema de efeitos, as constelações menores e os planetas gravitam cada um e todos ao redor do sol, assim no mundo subjetivo, ou sistema de causas, todos esses inúmeros ciclos gravitam entre aquilo que o intelecto finito do mortal comum considera como eternidade, e a intuição ainda finita, mas mais profunda, do sábio e do filósofo, vê como uma eternidade dentro da ETERNIDADE. “Como acima, assim é embaixo”, diz a velha máxima hermética. Como um experimento nessa direção, o Dr. Zasse selecionou as investigações estatísticas de todas as guerras, cuja ocorrência foi registrada na história, como um tema que se presta mais facilmente à verificação científica do que qualquer outro. Para ilustrar seu tema da maneira mais simples e mais facilmente compreensível, o Dr. Zasse representa os períodos de guerra e os períodos de paz na forma de pequenas e grandes linhas onduladas que percorrem a área do mundo antigo. A ideia não é nova, pois a imagem foi usada para ilustrações semelhantes por mais de um místico antigo e medieval, seja em palavras ou em imagens – por Henry Khunrath, por exemplo. Mas serve bem o seu propósito e nos apresenta os fatos que necessitamos agora. Antes, porém, de tratar dos ciclos das guerras, o autor traz o registro da ascensão e queda dos grandes impérios do mundo e mostra o grau de atividade que eles desempenharam na História Universal. Ele aponta o fato de que se dividirmos o mapa do Velho Mundo em cinco partes – em Ásia Oriental, Central e Ocidental, Europa Oriental e Ocidental, e Egito – perceberemos facilmente que a cada 250 anos, uma onda enorme perpassa essas áreas, trazendo para cada uma, por sua vez, os acontecimentos que ela trouxe para a próxima anterior. Essa onda podemos chamar de “onda histórica” do ciclo de 250 anos. O leitor irá por favor seguir este número místico de anos.

A primeira dessas ondas começou na China, 2.000 anos a.C. – a “idade de ouro” deste Império, a era da filosofia; de descobertas e reformas.

Em 1750 a.C., os mongóis da Ásia Central estabeleceram um poderoso império. Em 1500, o Egito se eleva da sua degradação temporária e carrega seu domínio a muitas partes da Europa e da Ásia; e por volta de 1250, a onda histórica atinge e atravessa a Europa Oriental, enchendo-a com o espírito da expedição Argonáutica, e morre em 1000 a.C. no cerco de Tróia.

Uma segunda onda histórica aparece nessa época na Ásia Central.

Os citas deixam suas estepes e inundam por volta do ano 750 a.C. os países vizinhos, dirigindo-se para o Sul e o Oeste; por volta do ano 500 na Ásia Ocidental começa uma época de esplendor para a antiga Pérsia; e a onda se move para o Leste da Europa, onde por volta de 250 a.C. a Grécia atinge seu mais alto estado de cultura e civilização – e mais adiante no Ocidente, onde, por volta do nascimento de Cristo, o Império Romano se encontra em seu apogeu de poder e grandeza.

Mais uma vez, neste período, encontramos o surgimento de uma terceira onda histórica no Extremo Oriente. Após prolongadas revoluções, nessa época, a China forma mais uma vez um poderoso império, e suas artes, ciências e comércio florescem novamente. Então, 250 anos depois, encontramos os hunos surgindo das profundezas da Ásia Central; no ano 500 d.C., um novo e poderoso reino persa é formado; em 750 – na Europa Oriental – pelo império bizantino; e, no ano 1.000 – em seu lado ocidental, brota a segunda potência romana, o Império do Papado, que logo alcança um extraordinário desenvolvimento de riqueza e brilho.

Ao mesmo tempo, a quarta onda se aproxima do Oriente. A China está novamente florescendo; em 1250, a onda mongol da Ásia Central transbordou e cobriu uma enorme extensão de terra, inclusive na Rússia. Por volta de 1500, na Ásia Ocidental, o Império Otomano eleva-se com todas as suas forças e conquista a península balcânica; mas, ao mesmo tempo, na Europa Oriental, a Rússia expulsa o jugo tártaro e, por volta de 1750, durante o reinado da imperatriz Catarina, eleva-se a uma inesperada grandeza e cobre-se de glória. A onda avança incessantemente para o Ocidente e, a partir de meados do século passado, a Europa vive uma época de revoluções e reformas e, segundo o autor, “se é permissível profetizar, então, por volta do ano 2.000 A Europa Ocidental terá vivido um desses períodos de cultura e progresso tão raros na história”. A imprensa russa, tomando a sugestão acredita que “para aqueles dias a Questão Oriental estará finalmente resolvida, as dissensões nacionais dos povos europeus terá chegado ao fim, e o alvorecer do novo milênio será testemunha da abolição dos exércitos e de uma aliança entre todos os impérios europeus”. Os sinais de regeneração também estão se multiplicando rapidamente no Japão e na China, como se apontassem para a aproximação de uma nova onda histórica no extremo Oriente.

Se, a partir do ciclo de dois séculos e meio de duração, descermos àqueles que deixam sua impressão a cada século, e agruparmos os acontecimentos da história antiga marcando o desenvolvimento e a ascensão de impérios, então nos asseguraremos que, a partir do ano 700 a.C., a onda do centenário avançará, trazendo à proeminência as seguintes nações – cada uma por sua vez – os assírios, os medos, os babilônios, os persas, os gregos, os macedônios, os cartagineses, os romanos e os alemães.

A marcante periodicidade das guerras na Europa também é notada pelo Dr. E. Zasse. Começando com 1700 d.C., cada dez anos foram sinalizados por uma guerra ou uma revolução. Os períodos de fortalecimento e enfraquecimento da excitação bélica das nações europeias representam uma onda notavelmente regular em sua periodicidade, fluindo incessantemente, como se fosse impulsionada por alguma lei fixa invisível. Essa mesma lei misteriosa parece, ao mesmo tempo, fazer com que esses acontecimentos coincidam com a onda ou ciclo astronômico, o qual, a cada nova revolução, é acompanhado pelo aparecimento muito marcado de manchas no sol. Os períodos, quando as potências europeias mostravam a energia mais destrutiva, são marcados por um ciclo de 50 anos de duração. Seria muito longo e tedioso enumerá-los desde o início da História. Podemos, portanto, limitar nosso estudo ao ciclo iniciado no ano de 1712, quando todas as nações europeias estavam lutando ao mesmo tempo – as guerras do norte e as turcas e a guerra pelo trono da Espanha. Aproximadamente em 1761, a “Guerra dos Sete Anos”; em 1810 as guerras de Napoleão I. Em 1861, a onda desviou um pouco de seu curso regular, mas, como que para compensá-la, ou, impulsionada, talvez, com força incomum, os anos imediatamente precedentes, bem como aqueles que se seguiram, deixaram na história os registros da mais feroz e sangrenta guerra – a Guerra da Criméia – no período anterior, e a Rebelião Americana no último. A periodicidade nas guerras entre a Rússia e a Turquia parece peculiarmente marcante e representa uma onda muito característica. A princípio, os intervalos entre os ciclos, retornando sobre si mesmos, são de trinta anos de duração – 1710, 1740, 1770; então esses intervalos diminuem e temos um ciclo de vinte anos – 1790, 1810, 1829-30; a seguir os intervalos se ampliam novamente – 1853 e 1878. Mas, se observarmos toda a duração da corrente contínua do ciclo bélico, então teremos no centro dela – de 1768 a 1812 – três guerras de sete anos de duração cada, e, em ambos os lados, guerras de dois anos.

Finalmente, o autor chega à conclusão de que, em vista dos fatos, torna-se completamente impossível negar a presença de uma periodicidade regular na excitação das forças mentais e físicas nas nações do mundo. Ele prova que na história de todos os povos e impérios do Velho Mundo, os ciclos que marcam os milênios, os centenários e os menores de 50 e 10 anos de duração, são os mais importantes, uma vez que nenhum deles ainda conseguiu trazer para trás algum acontecimento mais ou menos marcado na história da nação varrida por essas ondas históricas.

A história da Índia é uma das que, de todas as histórias, é a mais vaga e menos satisfatória. No entanto, se seus grandes acontecimentos consecutivos fossem anotados e seus anais bem pesquisados, verificar-se-ia que a lei dos ciclos se afirmava aqui tão claramente quanto em todos os outros países em relação a suas guerras, fome, exigências políticas e outros assuntos.

Na França, um meteorologista de Paris se deu ao trabalho de compilar as estatísticas das estações mais frias e descobriu, ao mesmo tempo, que aqueles anos, que tinham o número 9 em si, haviam sido marcados pelos invernos mais rigorosos. Seus números correm assim: em 859 d.C., a parte norte do mar Adriático congelou e ficou coberta de gelo por três meses. Em 1179, nas zonas mais moderadas, a terra ficou coberta por vários metros de neve. Em 1209, na França, a profundidade da neve e o frio implacável causaram tal escassez de forragem que a maior parte do gado pereceu naquele país. Em 1249, o Mar Báltico, entre a Rússia, a Noruega e a Suécia, permaneceu congelado por muitos meses e a comunicação era realizada por trenós. Em 1339, houve um inverno tão terrível na Inglaterra, que um grande número de pessoas morreu de fome e frio. Em 1409, o rio Danúbio ficou congelado em suas nascentes até a foz no Mar Negro. Em 1469, todas as vinhas e pomares pereceram em consequência da geada. Em 1609, na França, na Suíça e norte da Itália, as pessoas tinham que descongelar seu pão e provisões antes que pudessem usá-los. Em 1639, o porto de Marselha ficou coberto de gelo a uma grande distância. Em 1659, todos os rios da Itália ficaram congelados. Em 1699, o inverno na França e na Itália foi o mais severo e o mais longo de todos. Os preços de artigos de comida subiram tanto que a metade da população morreu de inanição. Em 1709, o inverno não foi menos terrível. O solo ficou congelado na França, Itália e Suíça, à profundidade de vários metros, e o mar, ao sul e ao norte, ficou coberto por uma crosta compacta e densa de gelo, com muitos metros de profundidade, e por um considerável espaço de quilômetros, no mar geralmente aberto. Massas de animais selvagens, expulsas pelo frio de suas tocas na floresta, procuravam refúgio nas aldeias e até nas cidades; e os pássaros caíam mortos no chão às centenas. Em 1729, 1749 e 1769 (ciclos de 20 anos de duração), todos os rios e riachos ficaram cobertos de gelo por toda a França por muitas semanas, e todas as árvores frutíferas morreram. Em 1789, a França foi novamente visitada por um inverno muito rigoroso. Em Paris, o termômetro atingiu 19 graus de geada. Mas o mais severo de todos os invernos foi o de 1829. Durante cinquenta e quatro dias consecutivos, todas as estradas da França ficaram cobertas de neve com vários metros de profundidade e todos os rios ficaram congelados. Fome e miséria atingiram seu clímax no país naquele ano. Em 1839, houve novamente na França uma estação fria muito terrível e desafiadora. E agora o inverno de 1879 afirmou seus direitos estatísticos e se mostrou fiel à influência fatal do número 9. Os meteorologistas de outros países são convidados a seguir o mesmo caminho e fazer suas investigações da mesma forma, pois o assunto é certamente um dos mais fascinantes bem como instrutivo.

Já foi mostrado o suficiente, no entanto, para provar que nem as ideias de Pitágoras sobre a misteriosa influência dos números, nem as teorias das religiões e filosofias do mundo antigo são tão superficiais e sem sentido como alguns livre-pensadores muito avançados gostariam que o mundo acreditasse.

__________

* Tradução de Marly Winckler