Escritos Compilados de Blavatsky, Volume XIII, p. 191.†
[Lúcifer, Vol. VIII, no 45, maio de 1891, pp. 241-247]

Bem, eu não disse “lixo” até onde lembro; o que eu disse em substância foi: “Deixe para lá; Ísis não irá satisfazê-lo. De todos os livros aos quais coloquei meu nome, este em particular, em termos de arranjo literário, é o pior e

[p. 192]

o mais confuso”. E eu poderia ter acrescentado com tanta verdade quanto que, analisada cuidadosamente de um ponto de vista estritamente literário e crítico, Ísis estava cheio de erros e citações erradas; que continha repetições inúteis, digressões muito irritantes e muitas contradições aparentes para o leitor casual não familiarizado com os vários aspectos das ideias e símbolos metafísicos; que a maior parte dos temas não deveriam estar ali, e também que tinha muitos erros grosseiros devido às muitas alterações na leitura de provas em geral e correções de palavras em particular. Finalmente, que o trabalho, por razões que agora serão explicadas, não possui nenhum sistema; e que parece na verdade, como observado por um amigo, como se uma grande quantidade de parágrafos independentes sem conexão alguma entre eles, tivessem sido sacudidas em uma cesta de lixo e depois retiradas aleatoriamente e publicadas.

___________

* [Para uma visão mais completa sobre a produção de Ísis Sem Véu, veja “Introdução” da edição de 1972, T.P.H., Wheaton, ILL., U.S.A.]
† Em Escritos Compilados de H. P. Blavatsky, Volume XIII, p. 191, traduzido para o português por Marly Winckler.

[p. 192]

Tal é também a minha opinião sincera. A plena consciência desta triste verdade surgiu em mim quando, pela primeira vez após a sua publicação em 1877, li o trabalho da primeira até a última página, na Índia, em 1881. E desde essa data até o presente, eu nunca deixo de dizer o que penso e de dar minha opinião honesta sobre Ísis sempre que tenho oportunidade de fazê-lo. Isso foi feito para o grande desgosto de alguns, que me disseram que estava arruinando sua venda; mas, como meu principal objetivo ao escrevê-lo, não era fama nem ganho pessoal, mas algo muito maior, eu pouco me importava com tais advertências. Por mais de dez anos, essa “obra-prima” infeliz, esse “trabalho monumental”, como algumas críticas o chamaram, com suas metamorfoses horríveis de uma palavra em outra, transformando assim o significado,* com seus erros de impressão e citações erradas me causaram mais ansiedade e problemas do que qualquer outra coisa durante uma longa vida que sempre foi mais cheia de espinhos do que de rosas.

___________

* Veja a palavra “planeta” para “ciclo” como originalmente escrito, corrigido por alguma mão desconhecida (Vol. I, p. 347, 2a par.), uma “correção” que mostra que Buda ensina que não há renascimento neste planeta (!!) quando o contrário é afirmado na p. 346, e o Senhor Buda ensina como “evitar” a reencarnação; o uso da palavra “planeta”, em lugar de plano, de “Monas” para Manas; e o sentido de ideias inteiras sacrificado à forma gramatical, e mudadas pela substituição de palavras erradas e pontuação errada, etc., etc., etc.

[p. 193]

Mas, apesar desse reconhecimento talvez exagerado, afirmo que Ísis Sem Véu contém um conjunto de informações originais e nunca divulgadas sobre assuntos ocultos. Que isso é assim, está comprovado pelo fato de que o trabalho foi amplamente apreciado por todos aqueles que foram inteligentes o suficiente para discernir o cerne e prestar pouca atenção à casca, dar preferência à ideia e não à forma, independentemente das suas pequenas falhas. Preparada para tomar sobre mim mesma – indiretamente, como mostrarei – os pecados de todos os defeitos externos, puramente literários, da obra, defendo as ideias e os ensinamentos nela contidos, sem medo de ser acusada de presunção, já que nem as ideias nem os ensinamentos são meus, como sempre declarei; e sustento que ambos são do maior valor para místicos e estudantes da Teosofia. Tanto é verdade que, quando Ísis foi publicado pela primeira vez, alguns dos melhores jornais americanos foram pródigos em elogios – até o exagero, como é evidenciado pelas citações abaixo.*

___________

* Ísis Sem Véu; uma chave mestra para os mistérios da ciência e da teologia antigas e modernas. De H. P. Blavatsky, Secretária Correspondente da Sociedade Teosófica. 2 vols., royal 8 vo., cerca de 1.500 páginas, pano, $ 7.50. Quinta edição.

“Esta obra monumental. . . . trata de tudo o que é relacionado à magia, ao mistério, à feitiçaria, à religião, ao espiritualismo, e o que seria valioso em uma enciclopédia”. – North American Review.

“É preciso reconhecer que ela é uma mulher notável, que leu mais, viu mais e pensou mais do que a maioria dos homens sábios. Sua obra abunda em citações de uma dúzia de línguas diferentes, não com o propósito de uma exibição vã de erudição, mas para sustentar seus pontos de vista peculiares . . . . suas páginas são guarnecidas com notas de pé de página, estabelecendo, como suas autoridades, alguns dos autores mais profundos do passado. Para uma grande classe de leitores, esta obra notável irá revelar-se como de absorvente interesse . . . . exige a atenção sincera dos pensadores e merece uma leitura analítica”. – Boston Evening Transcript.

“A aparência da erudição é estupenda. Abundam referências e citações dos autores mais desconhecidos e obscuros em todas as línguas, intercaladas de alusões a autores da maior reputação, que evidentemente receberam mais do que uma passada de olhos”. – N. Y. Independent.

[p. 194]

Os primeiros inimigos que meu trabalho trouxe ao fronte foram os espíritas, cujas teorias fundamentais de que os espíritos dos mortos se comunicavam em propria persona eu invalidei. Nos últimos quinze anos – desde essa primeira publicação – uma incessante chuva de acusações desagradáveis foi despejada sobre mim. Toda acusação difamatória, desde a imoralidade e a teoria da “espiã russa” até minha atuação em falsas pretensões, de fraude crônica e de mentirosa ambulante, bêbada habitual, emissária do papa, paga para acabar com o espiritismo e Satanás encarnada. Toda calúnia que pode ser pensada foi lançada sobre a minha vida privada e pública. O fato de que nenhuma dessas acusações jamais foi comprovada; que desde o primeiro dia de janeiro até o último de dezembro, ano após ano, eu vivi rodeada de amigos e inimigos como em uma casa de vidro – nada poderia parar essas línguas perversas, venenosas e sem escrúpulos. Foi dito em várias ocasiões por meus opositores sempre ativos que (1) Ísis Sem Véu era simplesmente uma nova versão de Éliphas Lévi e alguns velhos alquimistas; (2) que foi escrito por mim sob o ditado dos Poderes do Mal e os espíritos que partiram de jesuítas (sic); e finalmente (3) que meus dois volumes foram compilados a partir de manuscritos (dos quais nunca se ouviu falar antes), que o barão de Palm – aquele da cremação e fama pelo duplo sepultamento – tinha deixado para trás, e que eu havia

________

intercaladas de alusões a autores da maior reputação, que evidentemente receberam mais do que uma passada de olhos”. – N. Y. Independent.

“Um ensaio extremamente legível e exaustivo sobre a importância primordial de restabelecer a Filosofia Hermética em um mundo que acredita cegamente que a superou”. – N.Y. World.

“O livro mais notável da temporada”. – Com. Advertiser.

“Para leitores que nunca se familiarizaram com a literatura do misticismo e da alquimia, o livro irá fornecer materiais para um estudo interessante – uma mina de informações curiosas”. – Evening Post.

“Eles dão provas de muitas e variadas pesquisas por parte da autora, e contêm uma grande quantidade de histórias interessantes. As pessoas que gostam do maravilhoso encontrarão neles entretenimento em abundância”. – New York Sun.

[p. 195]

encontrado em seu baú!* Por outro lado, alguns amigos, tão imprudentes quanto gentis, espalharam o que era realmente a verdade, com um certo entusiasmo demasiado, a respeito da ligação do meu Instrutor Oriental e outros Ocultistas com a obra; e os inimigos se aproveitaram disso e exageraram muito além de todos os limites da verdade. Disseram que a obra toda de Ísis tinha sido ditada a mim, de capa a capa e verbatim por esses Adeptos invisíveis. E, como as imperfeições do meu trabalho eram muito flagrantes, a consequência de toda essa conversa ociosa e maliciosa era que meus inimigos e críticos inferiram – como bem o fizeram – que esses inspiradores invisíveis não tinham existência e eram parte da minha “fraude”, ou que eles não tinham a inteligência de até mesmo um bom escritor mediano.

_________

“Um livro maravilhoso tanto em matéria quanto em modo de tratamento. Alguma ideia pode ser formada pela raridade e extensão de seus conteúdos, quando o índice sozinho compreende cinquenta páginas, e nós não arriscamos nada em dizer que um índice de assuntos como este nunca foi compilado por qualquer ser humano. . . . . Mas o livro é curioso e, sem dúvida, encontrará o caminho para as bibliotecas por causa dos assuntos exclusivos que contém. . . . certamente será atraente para todos os interessados ​​em história, teologia e mistérios do mundo antigo”. – Daily Graphic.

“O presente trabalho é fruto do notável curso de educação da autora e confirma amplamente suas alegações quanto ao personagem de um adepto da ciência secreta e até ao posto de um hierofante na exposição de sua tradição mística”. – New York Tribune.

“Quem lê o livro cuidadosamente, pode aprender tudo sobre o maravilhoso e místico, exceto talvez, as senhas. Ísis irá complementar Anacalypsis. Quem gosta de ler Godfrey Higgins ficará encantado com a Sra. Blavatsky. Há uma grande semelhança entre suas obras. Ambos tentaram dizer tudo sobre o apócrifo e apocalíptico. É fácil prever a recepção deste livro. Com suas peculiaridades impressionantes, sua audácia, sua versatilidade e a variedade prodigiosa de assuntos que ela observa e manipula, é uma das produções notáveis ​​do século” – New York Herald.

* Este nobre austríaco, que se encontrava totalmente desprovido de recursos em Nova York, e a quem o coronel Olcott tinha dado abrigo e comida, cuidando-o nas últimas semanas de vida – não deixou nenhum manuscrito para trás, a não ser contas. O único pertence do barão era uma velha valise, na qual seus “executores” encontraram um cupido de bronze batido, algumas medalhas estrangeiras (imitações em pechisbeque e massa, uma vez que o ouro e os diamantes tinham sido vendidos); e algumas camisas do coronel Olcott, que o ex-diplomata havia pegado sem permissão.

[p. 196]

não tinham existência e eram parte da minha “fraude”, ou que eles não tinham a inteligência de até mesmo um bom escritor mediano.

Ora, ninguém tem o direito de me responsabilizar pelo que qualquer um pode dizer, mas apenas por aquilo que eu própria declaro oralmente, ou em impressão pública assinada por mim. E o que eu digo e afirmo é o seguinte: salvo as citações diretas e os muitos erros de impressão já especificados e mencionados, erros e citações equivocadas e a composição geral de Ísis Sem Véu, pela qual eu não sou de modo algum responsável, (a) cada palavra das informações encontradas nesta obra ou em meus escritos posteriores, advêm dos ensinamentos de nossos Mestres Orientais; e (b) que muitas das passagens dessas obras foram escritas por mim sob o seu ditado. Ao dizer isso, nenhuma alegação sobrenatural é instada, pois nenhum milagre é realizado em tal ditado. Qualquer pessoa moderadamente inteligente, convencida a estas alturas das muitas possibilidades do hipnotismo (agora aceito pela ciência e sob investigação científica completa) e dos fenômenos de transmissão de pensamento, facilmente admitirá que, mesmo que um sujeito hipnotizado, um mero médium irresponsável, ouvisse o pensamento não expresso de seu hipnotizador, que pode assim transferir seu pensamento para ele – até mesmo repetir mentalmente as palavras lidas pelo hipnotizador de um livro – então minha afirmação não tem nada de impossível. Espaço e distância não existem para o pensamento; e se duas pessoas estão em perfeito relacionamento psico-magnético mútuo, e destas duas, uma é um grande Adepto em Ciências Ocultas, então a transferência de pensamento e o ditado de páginas inteiras, tornam-se tão fáceis e compreensíveis à distância de dez mil quilômetros quanto a transferência de duas palavras em uma sala.

Até então, abstive-me – exceto em ocasiões muito raras – de responder a qualquer crítica sobre minhas obras, e até mesmo deixei calúnias diretas e mentiras sem resposta, porque no caso de Ísis eu achei quase todo tipo de crítica justificável e quanto às “calúnias e mentiras”, meu desprezo pelos caluniadores era grande demais para me permitir noticiá-los. Especialmente foi o caso em relação às matérias difamatórias que emanam da América. Todas vêm de uma mesma fonte, bem conhecida de todos os teósofos, uma pessoa infatigável em me atacar pessoalmente pelos últimos

[p. 197]

doze anos, embora nunca a tenha visto nem conhecido a criatura. Nem eu pretendo responder agora. Mas, como Ísis é agora atacada pela décima vez pelo menos, chegou a hora em que meus amigos perplexos e a parte do público que pode ter simpatia pela Teosofia têm direito a toda a verdade – e nada mais que a verdade. Não que eu busque me desculpar em nada diante deles ou “explicar as coisas”. Não é nada disso. O que estou decidida a fazer é fornecer fatos, inegáveis e que não podem ser negados, simplesmente afirmando as circunstâncias peculiares, bem conhecidas de muitos, mas agora quase esquecidas, sob as quais escrevi meu primeiro livro em inglês.

 Eu dou-lhes seriatim.

  1. Quando eu vim para a América em 1873, eu não falava inglês – que havia aprendido na minha infância coloquialmente – há mais de trinta anos. Eu podia entender quando lia, mas dificilmente podia falar o idioma.
  2. Nunca frequentei nenhuma faculdade, e o que eu sabia aprendi por minha conta; nunca pretendi nenhum conhecimento no sentido da pesquisa moderna; quase não havia lido então qualquer obra científica europeia, sabia pouco da filosofia e das ciências ocidentais. O pouco que eu tinha estudado e aprendido sobre isso, me desgostou por seu materialismo, suas limitações, espírito de dogmatismo preto no branco e seu ar de superioridade perante as filosofias e as ciências da antiguidade.
  3. (3). Até 1874 eu nunca tinha escrito uma palavra em inglês, nem tinha publicado nenhum trabalho em qualquer idioma. Assim sendo –
  4. Eu não fazia a menor ideia sobre regras literárias. A arte de escrever livros, de prepará-los para imprimir e publicar, ler e corrigir provas, eram segredos fechados para mim.
  5. Quando comecei a escrever o que se tornou mais tarde Ísis Sem Véu, não tinha mais ideia do que o homem na Lua, do que estava por vir. Eu não tinha plano; não sabia se seria um ensaio, um panfleto, um livro ou um artigo. Eu sabia que tinha que escrever, era tudo. Comecei o trabalho antes de conhecer bem o coronel Olcott e alguns meses antes da formação da Sociedade Teosófica.
__________
† Eu não mencionarei seu nome. Há nomes que trazem um odor fétido moral sobre eles, impróprios para qualquer revista ou publicação decente. Suas palavras e ações emanam da cloaca maxima do Universo da matéria e têm de retornar a ela, sem me tocar.

[p. 198]

Assim, as condições para me tornar a autora de uma obra teosófica e científica em inglês eram otimistas, como todos verão. No entanto, escrevi o suficiente para preencher quatro volumes como os de Ísis, antes de enviar meu trabalho ao coronel Olcott. É claro que ele disse que tudo, a não ser as páginas ditadas – tinha que ser reescrito. Então começamos nossos trabalhos literários e passamos a trabalhar juntos todas as noites. Copiei algumas páginas cujo inglês ele havia corrigido: outras que não poderiam receber qualquer correção de um mortal, ele costumava ler em voz alta a partir de meus manuscritos, melhorando o inglês enquanto avançava, ditando para mim a partir de meus escritos quase indecifráveis. É a ele que estou em dívida pelo inglês de Ísis. Foi ele também que sugeriu que a obra deveria ser dividida em capítulos e o primeiro volume dedicado à CIÊNCIA e o segundo à TEOLOGIA. Para isso, os assuntos precisavam ser reformulados, e muitos capítulos também; as repetições tiveram que ser apagadas e a ligação literária dos assuntos estabelecida. Quando o trabalho estava pronto, nós o enviamos ao professor Alexander Wilder, conhecido erudito e platonista de Nova York, que depois de tê-lo lido, o recomendou ao Sr. Bouton para publicação. Ao lado do coronel Olcott, é o professor Wilder quem fez mais por mim. Foi ele quem fez o excelente Índice, que corrigiu as palavras gregas, latinas e hebraicas, sugeriu citações e escreveu a maior parte da Introdução “Ante o Véu”. Se isso não foi reconhecido no trabalho, a culpa não é minha, mas porque era o desejo expresso do Dr. Wilder de que seu nome não aparecesse, exceto em notas de rodapé. Eu nunca fiz segredo disso, e cada um dos meus numerosos conhecidos em Nova York sabia disso. Quando ficou pronto, o trabalho foi enviado para ser impresso.

A partir desse momento, começaram as reais dificuldades. Eu não tinha ideia de como corrigir provas tipográficas; o coronel Olcott tinha pouco tempo livre para fazê-lo; e o resultado foi que eu fiz uma bagunça disso

[p. 199]

desde o começo. Antes de termos terminado os três primeiros capítulos, havia uma conta de seiscentos dólares para correções e alterações, e eu tive que desistir da revisão. Pressionada pelo editor, o coronel Olcott fazendo tudo o que podia, mas sem tempo além das noites, e o Dr. Wilder longe, em Jersey City, o resultado foi que as provas e páginas de Ísis passaram por uma série de mãos cheias de boa vontade, mas não muito cuidadosas, e, finalmente, foram deixadas para as ternas mercês do leitor de provas da editora. Não é de admirar-se que depois disso “Vaivaswata” (Manu) tenha se transformado nos volumes publicados em “Viswamitra”, que trinta e seis páginas do Índice tenham sido irremediavelmente perdidas, e aspas tenham sido colocadas onde nenhuma era necessária (como em algumas de minhas próprias frases!), e deixadas de fora inteiramente em muitas passagens citadas de vários autores. Se me perguntarem por que esses erros fatais não foram corrigidos em uma edição posterior, minha resposta é simples: as placas eram estereotipadas; e apesar de todo o meu desejo de fazê-lo, não pude colocar isso em prática, pois as placas eram propriedade da editora. Eu não tinha dinheiro para pagar as despesas e, finalmente, a empresa estava bastante satisfeita em deixar as coisas como estavam, uma vez que, apesar de todos os seus defeitos gritantes, a obra, que já atingiu sua sétima ou oitava edição, ainda está em demanda.

E agora – e talvez em consequência disso tudo – vem uma nova acusação: eu sou acusada de plágio indiscriminado no capítulo introdutório “Ante o Véu”!

Bem, se eu tivesse cometido um plágio, não hesitaria nem um pouco em admitir o “empréstimo”. Mas todas as “passagens paralelas” em contrário, como não o fiz, não vejo por que devo confessá-lo; mesmo que a “transmissão de pensamento”, como o Pall Mall Gazette, o denomina, esteja na moda e seja remunerada agora. Desde o dia em que a imprensa americana ergueu a voz contra Longfellow, que, tomou emprestando de uma tradução alemã (então) desconhecida do épico finlandês, o Kalevala, e o publicou como seu próprio poema, Hiawatha, e esqueceu de reconhecer a fonte de sua inspiração, a imprensa continental tem repetidamente feito outras acusações semelhantes. O presente ano é

[p. 200]

especialmente fértil em tais “transmissões de pensamento”. Aqui temos o Senhor Prefeito da Cidade de Londres, repetindo palavra por palavra um antigo sermão esquecido do Sr. Spurgeon e jurando que ele nunca havia lido, nem ouvido falar dele. O rev. Robert Bradlaugh escreve um livro, e imediatamente o Pall Mall Gazette denuncia-o como uma cópia do trabalho de outra pessoa. O Sr. Harry de Windt, o viajante oriental e um F.R.G.S.*, além disso, encontra várias páginas de seu recém publicado A Ride to India, across Persia and Baluchistan (Um Passeio à Índia, passando pela Pérsia e o Paquistão), pela Academia de Londres, em paralelo com passagens de The Country of Baluchistan (O País do Baluchistão), de A. W. Hughes, que são idênticas, verbatim et literatim. A Sra. Parr nega no British Weekly que seu romance Sally foi emprestado consciente ou inconscientemente da Sally da Srta. Wilkins e afirma que nunca tinha lido a referida história, nem mesmo ouvido o nome da autora e assim por diante. Finalmente, todos que leram La Vie de Jésus, de Renan, descobriram que ele plagiou por antecipação, algumas passagens descritivas feitas em versos fluidos em Light of the World (Luz do Mundo). No entanto, mesmo Sir Edwin Arnold, cujo gênio versátil e reconhecido não precisa de imagens emprestadas, falhou em agradecer ao acadêmico francês por suas imagens do Monte Tabor e da Galiléia em prosa, que ele tão elegantemente apresentou em versos em seu último poema. De fato, nesta etapa da nossa civilização e fin de siècle, temos de nos sentir muito honrados em ser colocados em uma tão boa e numerosa companhia, mesmo como um – plagiador. Mas eu não posso reivindicar tal privilégio e, simplesmente pela razão já exposta de que, com exceção de todo o capítulo Introdutório “Ante o Véu”, eu posso reivindicar como minhas próprias apenas certas passagens do Glossário anexadas a ele, a parte platônica, o que agora é denunciada como “um plágio descarado” foi escrita pelo professor A. Wilder.

Esse cavalheiro ainda vive em Nova York ou perto dela, e pode-se perguntar a ele se a minha afirmação é verdadeira ou não. Ele é um erudito muito honrado, muito genial, para negar ou temer qualquer coisa. Ele insistiu em uma espécie de Glossário, explicando os nomes e palavras gregas e sânscritas com as quais o trabalho abunda, que fosse anexado a uma Introdução, e forneceu alguns itens ele mesmo. Pedi-lhe que me desse um breve resumo dos filósofos platônicos, e ele gentilmente o fez. Assim, a partir da p. 11 até a 22 o texto é dele, com poucas passagens intercaladas que quebram a narrativa platônica, para mostrar a identidade das ideias nas Escrituras Hindus. Ora, quem dos que conhecem pessoalmente o Dr. A. Wilder, ou de nome, que estão cientes da grande cultura desse eminente platonista, editor de tantas obras eruditas,* seria insano o suficiente para acusá-lo de “plagiar” o trabalho de qualquer autor! Eu forneço na nota do pé página o nome de algumas das obras platônicas e outras que ele editou. A acusação seria simplesmente absurda!

____________

* Fellow of the Royal Geographical Society (Membro da Real Sociedade Geográfica (N. da T.)

[p. 201]

O fato é que o Dr. Wilder deve ter se esquecido de colocar aspas antes e depois de passagens copiadas por ele de vários autores em seu Resumo; ou então, devido à sua escrita muito difícil, ele não conseguiu marcá-las com suficiente clareza. É impossível, após o lapso de quase quinze anos, lembrar ou verificar os fatos. Até hoje, eu tinha imaginado que essa dissertação sobre os platônicos era dele, e nunca mais pensei nisso. Mas agora os inimigos descobriram as passagens não citadas e proclamam mais alto que nunca que “a autora de Ísis Sem Véu“, é uma plagiadora e uma fraude. Muito provavelmente mais pode ser encontrado, pois essa obra é uma mina inesgotável de citações errôneas, erros e tolices, para a qual me é impossível declarar-me “culpada” no sentido comum. Deixe então que os caluniadores prossigam, apenas para achar em mais quinze anos, o que eles encontraram no período anterior, e que, o que quer que eles façam, não podem arruinar a teosofia nem mesmo me ferir. Não tenho vaidade de autora; e anos de perseguição e ofensas injustos me tornaram insensível ao que o público possa pensar de mim – pessoalmente.

Mas em vista dos fatos dados acima; e considerando que –

  • (a) O idioma em Ísis não é o meu; mas (com exceção da parte do trabalho que, como eu alego, foi ditada), pode ser chamada apenas de uma espécie de tradução de meus fatos e ideias para o inglês; [p. 202]
  • (b) Não foi escrita para o público, – o último sempre foi apenas uma consideração secundária para mim – mas para o uso de teósofos e membros da Sociedade Teosófica a quem Ísis é dedicada;
  • (c) Embora desde então eu tenha aprendido inglês suficiente para estar habilitada para editar duas revistas – Theosophist e Lúcifer – ainda, até agora, eu nunca escrevo um artigo, um editorial ou mesmo um parágrafo simples, sem submeter seu inglês ao escrutínio e correção.

Considerando tudo isso e muito mais, pergunto agora a cada homem e mulher imparciais e honestos se é justo ou mesmo razoável criticar minhas obras – Ísis, acima de todas as outras – como se fossem os escritos de um autor americano ou inglês! O que eu reivindico nelas como meu é apenas o fruto do meu aprendizado e estudos em um departamento até agora deixado sem investigação pela Ciência, e quase desconhecido para o mundo europeu. Estou perfeitamente disposta a deixar a honra da gramática inglesa nelas, a glória das citações de trabalhos científicos trazidos de vez em quando para serem usados ​​como passagens para comparação ou refutação da Ciência antiga e, finalmente, a composição geral dos livros, para todos aqueles que me ajudaram. Até mesmo para The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta) havia cerca de meia dúzia de teosofistas que estiveram ocupados em editá-la, que me ajudaram a organizar os assuntos, corrigir o inglês imperfeito e prepará-la para a impressão. Mas o que nenhum deles poderá reivindicar desde o primeiro até o último, é a doutrina fundamental, as conclusões filosóficas e os ensinamentos. Nada disso eu inventei, mas simplesmente repassei assim como fui ensinada; ou como diz a frase de Montaigne citada por mim em A Doutrina Secreta (Vol. I, p. xlvi):

“Eu fiz apenas um ramalhete de flores escolhidas: nele nada existe de meu, a não ser o cordão que as prende”.

Algum de meus ajudantes está preparado para dizer que não paguei o preço completo pelo cordão?

27 de abril de 1891.                   H. P. BLAVATSKY.