O véu que cobre o rosto do futuro é tecido pela mão da Misericórdia.
BULWER LYTTON

UM FELIZ ANO-NOVO A TODOS! Isto parece fácil de dizer, e todos esperam alguma saudação assim. Contudo, decidir se o desejo — embora possa proceder de um coração sincero — tem alguma chance de se realizar, ainda que para alguns poucos, já é bem mais difícil. Segundo nossos princípios teosóficos, todo homem ou mulher é dotado, em maior ou menor grau, de uma potencialidade magnética que, quando auxiliada por uma vontade sincera, e sobretudo intensa e indomável — constitui a mais eficaz das alavancas mágicas colocadas pela Natureza nas mãos humanas — tanto para o mal quanto para o bem. Usemos, então, nós, Teosofistas, essa vontade para enviar uma saudação sincera e um voto de boa sorte, para o Ano-Novo, a toda criatura viva sob o Sol — incluindo inimigos e caluniadores implacáveis. Procuremos sentir-nos especialmente bondosos e perdoados com nossos adversários e perseguidores, honestos ou desonestos, para que nenhum de nós envie inconscientemente uma saudação de “mau-olhado” em vez de uma bênção. Tal efeito é demasiadamente fácil de produzir, mesmo sem a ajuda da combinação oculta dos dois números — o 8 e o 9 — do ano que finda e do recém-nascido. Mas com esses dois números encarando-nos agora, um mau desejo seria simplesmente desastroso!

— “Ora essa!” — ouvimos alguns leitores ocasionais exclamarem — “aí vem uma nova superstição desses malucos teosóficos; vamos ouvir…”

Pois bem, caros críticos, vocês ouvirão — embora não seja nova, mas uma superstição muito antiga. Um dia foi compartilhada e firmemente acreditada por todos os Césares e potentados do mundo. Eles temiam o número 8, porque ele postulava a igualdade de todos os homens. Da unidade eterna e do misterioso número sete — do Céu, dos sete planetas e da esfera das estrelas fixas — nasceu, na filosofia aritmética, a ogdóade. Era o primeiro cubo dos números pares e, por isso, considerado sagrado. Na filosofia oriental, o número oito simboliza a igualdade das unidades, ordem e simetria no céu — transformadas, na Terra, em desigualdade e confusão pela ambição egoísta, a grande rebelde contra os decretos da Natureza.

“O número 8, ou ∞, indica o movimento perpétuo e regular do Universo”, diz Ragon. Mas, se perfeito como número cósmico, ele é também símbolo do Eu inferior — a natureza animal do homem. Assim, pressagiamos mal para a parte altruísta da humanidade diante da presente combinação de números do ano. Pois as cifras centrais 89, em 1890, são apenas repetição das duas últimas de 1889. E o nove era um algarismo terrivelmente temido pelos antigos. Para eles, simbolizava grandes mudanças — cósmicas e sociais — e versatilidade em geral; o triste emblema da fragilidade das coisas humanas. O número 9 representa a Terra sob a influência de um princípio maligno; os cabalistas sustentam, além disso, que ele simboliza o ato da reprodução e geração. Isto é, o ano de 1890 prepara-se para reproduzir todos os males de seu progenitor, 1889, e gerar muitos outros por conta própria. O três vezes três é o grande símbolo da corporificação, ou materialização do espírito segundo Pitágoras — portanto, de matéria grosseira.

Toda extensão material, toda linha circular era representada pelo número 9, pois os antigos filósofos observaram aquilo que os “filosofículos” de nossa época deixam de perceber — ou a que não atribuem importância alguma. Contudo, a depravação natural deste dígito e número é terrível. Sendo sagrado às esferas, ele representa o sinal da circunferência, já que seu valor em graus equivale a 9 (3+6+0). É também o símbolo da cabeça humana — especialmente da cabeça moderna mediana, sempre pronta a se ostentar como 9 quando mal chega a ser 3. Além disso, esse bendito 9 possui o curioso poder de reproduzir-se integralmente em toda multiplicação, queira-se ou não: multiplicado por si mesmo ou por qualquer outro número, esse atrevido e pernicioso algarismo sempre resulta numa soma final de 9 — um truque vicioso da natureza material, que também se reproduz ao menor estímulo. Assim se compreende por que os antigos fizeram do 9 o símbolo da Matéria, e nós, os modernos ocultistas, fazemos dele o símbolo do materialismo de nossa era — o fatal século XIX, felizmente em declínio.