[The Theosophist, Vol. VI, no 1(61), outubro de 1884, p. 1]

Helena Bravatsky

Não obstante os muitos artigos que apareceram nesta revista sobre o assunto acima, ainda prevalecem muitos mal-entendidos e muitas visões equivocadas.

O que são os Chelas e quais são seus poderes? Eles têm falhas e em que aspectos particulares são diferentes das pessoas que não são Chelas? Cada palavra proferida por um Chela deve ser tomada como verdade absoluta?

Essas perguntas surgem porque muitas pessoas têm alimentado, por algum tempo, opiniões muito absurdas sobre os Chelas, e quando descobriram que essas opiniões deveriam ser mudadas, a reação foi em vários casos bastante violenta.

A palavra “Chela” significa simplesmente discípulo; mas tornou-se cristalizada na literatura teosófica e possui, em diferentes mentes, tantas definições diferentes quanto a própria palavra “Deus”. Alguns chegaram ao ponto de dizer que quando um homem é um Chela, ele é imediatamente colocado em um plano em que cada palavra que ele possa, infelizmente, pronunciar é considerada ex cathedra, e ele não tem o pobre privilégio de falar como uma pessoa comum. Se for descoberto que qualquer declaração foi por sua própria conta e responsabilidade, ele é acusado de ter enganado seus ouvintes.

Ora, essa ideia equivocada deve ser corrigida de uma vez por todas. Existem Chelas e Chelas, assim como existem MAHATMAS e MAHATMAS. Na verdade, existem MAHATMAS que são os Chelas daqueles que estão ainda mais elevados. Mas ninguém, nem por um instante, confundiria um Chela que acabou de começar sua árdua jornada com aquele Chela maior que é um MAHATMA.

Na verdade, o Chela é um homem desafortunado que entrou em “um caminho não manifesto”, e Krishna diz que “este é o caminho mais difícil”.

Em vez de ser o porta-voz constante de seu Guru, ele se vê mais sozinho no mundo do que aqueles que não são Chelas, e seu caminho é cercado de perigos o que assustaria muitos aspirantes, se fossem representados em cores naturais, de modo que, em vez de aceitar seu Guru e passar em um exame de admissão com o objetivo de se tornar Bacharel na Arte do Ocultismo sob a orientação constante e amigável de seu mestre, ele realmente força seu caminho para um recinto vigiado e, a partir desse momento, tem que lutar e conquistar – ou morrer. Em vez de aceitar, ele tem que ser digno de aceitação. Tampouco deve se oferecer. Um dos Mahatmas, neste ano, escreveu: “Nunca se imponha a nós para o Chelado; espere até que desça sobre você”.

E tendo sido aceito como Chela, não é verdade que ele seja meramente o instrumento de seu Guru. Ele fala como os homens comuns, então, como antes, e é somente quando o mestre envia, por meio do Magnetismo do Chela uma carta escrita de fato, é que os espectadores podem dizer que através dele veio uma comunicação.

Pode acontecer com Chelas, assim como acontece com qualquer autor ocasionalmente, que eles produzam declarações verdadeiras ou belas, mas não se deve concluir, por isso, que durante essas declarações o Guru estava falando através do Chela. Se havia o germe de um bom pensamento na mente, a influência do Guru, como a chuva suave sobre a semente, pode ter feito com que ela brotasse de repente e florescesse anormalmente, mas isso não é a voz do mestre. De fato, são raros os casos em que os mestres falam através de um Chela.

Os poderes dos Chelas variam de acordo com seu progresso; e todos devem saber que, se um Chela possui quaisquer “poderes”, ele não tem permissão para usá-los, exceto em casos raros e excepcionais, e nunca pode se gabar de sua posse. Portanto, deve-se concluir que aqueles que são apenas iniciantes não têm mais ou maior poder do que um homem comum. De fato, o objetivo estabelecido diante do Chela não é a aquisição de poder psicológico; sua principal tarefa é despojar-se daquele senso avassalador de personalidade que é o véu espesso que esconde da vista nossa parte imortal – o verdadeiro ser. Enquanto ele permitir que esse sentimento permaneça, estará parado exatamente à porta do Ocultismo, incapaz de prosseguir.

Sentimentalismo, portanto, não é o equipamento de um Chela. Seu trabalho é árduo, sua estrada pedregosa, o fim distante. Com sentimentalismo apenas ele não avançará de forma alguma. Ele está esperando que o mestre lhe peça para mostrar sua coragem precipitando-se de um penhasco ou enfrentando as frias encostas do Himalaia? Vã esperança; eles não vão chamá-lo assim. E assim, como ele não deve se revestir de sentimentalismo, o público também não deve, quando deseja considerá-lo, lançar um falso véu de sentimentalismo sobre todas as suas ações e palavras.

Tenhamos, portanto, doravante, um pouco mais de discernimento ao observar os Chelas.