Blavatsky faz uma distinção muito clara e importante entre espiritualismo e espiritismo, e muita gente até hoje confunde os dois.

1.⁠ ⁠Espiritualismo segundo Blavatsky

Para Blavatsky, espiritualismo é a doutrina que reconhece a existência do espírito, da alma imortal e das realidades invisíveis além do mundo material. Mas, acima de tudo, é um sistema filosófico e esotérico que ensina a evolução da alma, o autoconhecimento e o contato consciente e superior com as dimensões espirituais.

O espiritualismo blavatskiano não é apenas uma crença na alma, mas uma ciência oculta — uma verdadeira filosofia iniciática baseada nas tradições esotéricas do Oriente e do Ocidente (Vedanta, Budismo Esotérico, Neoplatonismo, Kabbalah, etc.).

  • Está relacionado com o reconhecimento de planos de existência superiores ao físico e da natureza divina do ser humano.

  • O espiritualismo não se limita à comunicação com espíritos, mas compreende o esforço consciente de se elevar moralmente, intelectualmente e espiritualmente.

  • Blavatsky associa o verdadeiro espiritualismo às tradições esotéricas do Oriente e do Ocidente que buscam a sabedoria divina (theosophia), e não apenas fenômenos.

Ela considera o espiritualismo, em seu sentido mais profundo, como uma filosofia universal, presente em várias tradições antigas (hinduísmo, budismo, neoplatonismo, gnosticismo, etc.), que tem como finalidade a autotransformação e a união com o Todo.

Para ela, o espiritualismo autêntico é:

• Científico (pois estuda as leis invisíveis da natureza)
• Filosófico (pois busca as causas últimas)
• Ético (pois conduz ao aperfeiçoamento moral e mental)
• Interno (não depende de fenômenos exteriores, mas do despertar da alma e do desenvolvimento da percepção espiritual)

2.⁠ ⁠Espiritismo segundo Blavatsky

O espiritismo, para Blavatsky, é o movimento moderno surgido com as Irmãs Fox (1848) e sistematizado por Allan Kardec, que busca comunicação com os “espíritos dos mortos” através de médiuns.

Blavatsky critica o espiritismo por vários motivos:

• Ela considera que a maioria das manifestações mediúnicas não vem de almas humanas superiores ou de “espíritos desencarnados”, mas sim de cascas astrais (o que ela chama de Kama-rupas), restos emocionais e psíquicos dos mortos, destituídos de consciência plena.
• Os fenômenos são instáveis, enganosos e, muitas vezes, manipulados por elementais (forças da natureza que agem automaticamente ou por influência de médiuns e assistentes).
• O espiritismo, para Blavatsky, se ocupa demais de fenômenos físicos (batidas, materializações, psicografias) e pouco ou nada do aspecto superior e real da alma (Manas Superior e Buddhi).

Em outras palavras, o espiritismo, segundo ela, é:

• Parcial (não reconhece toda a constituição oculta do homem)
• Perigoso (porque lida com forças e entidades das esferas inferiores)
• Limitado (prende o buscador ao plano psíquico inferior, sem alcançar o espiritual superior)

Em resumo, para Blavatsky:

  • Espiritualismo: doutrina filosófica, esotérica e universal, relacionada à evolução da alma e à busca da verdade espiritual.

  • Espiritismo: sistema limitado à comunicação mediúnica com “espíritos”, muitas vezes mal interpretados, e sem um verdadeiro aprofundamento na ciência espiritual.

    Na época e no contexto de Blavatsky, “Spiritualists” se refere ao que hoje em português chamamos de espíritas — ou seja, os adeptos do chamado Espiritismo Moderno, surgido com as mesas girantes, as irmãs Fox e o movimento espiritualista americano.

    Blavatsky nunca usou o termo espírita porque o vocabulário dela era anterior à popularização do termo na França e Brasil (Spiritisme, Espiritisme). Ela sempre chamou o movimento de Modern Spiritualism, e seus adeptos de Spiritualists, mas o conteúdo corresponde diretamente ao que conhecemos no Brasil por Espiritismo kardecista ou seus derivados.

Em Isis Sem Véu (Isis Unveiled)

Blavatsky critica explicitamente o espiritismo kardecista e outras formas de mediunismo ocidental da época:

“O espiritismo moderno nada tem a ver com o verdadeiro espiritualismo. O primeiro está limitado às manifestações do plano astral inferior; o segundo, busca a alma, o espírito divino, e não apenas cascas e fragmentos dos mortos.”

Ela descreve que o espiritismo se ocupa em grande parte com “fantasmas” e “formas astrais residuais” — chamados por ela de cascões ou elementais astrais, que podem iludir os médiuns e imitarem vozes ou comportamentos de pessoas falecidas.

Isis Sem Véu (1877), Volume II, Capítulo VI

“O moderno Espiritismo é o filho ilegítimo e degenerado do antigo Espiritualismo filosófico. Não se preocupa com as causas ocultas, nem busca o espírito imortal, mas apenas com manifestações duvidosas e fantasmas que muitas vezes são meras emanações do plano astral inferior.”
(p. 587, edição inglesa)

Blavatsky afirma que a maioria dos fenômenos espíritas não são causados por almas humanas desencarnadas, mas por cascas astrais ou forças elementais.

Em A Doutrina Secreta, Volume I

Blavatsky reforça:

“Os médiuns são joguetes nas mãos de elementais e cascas astrais, e é raro o caso em que uma verdadeira alma humana possa comunicar-se através deles”.

Aqui ela diferencia o estudo esotérico (espiritualismo teosófico) da prática comum do espiritismo ocidental. Enquanto o espiritualismo teosófico busca o contato com o Eu Superior (Atman) e o conhecimento das leis cósmicas, o espiritismo tende a se fixar nos fenômenos do plano astral inferior.

A Doutrina Secreta (1888), Volume I, parte 1, Estância 7, comentário

“O chamado ‘Espiritismo’ é, na maior parte, o resultado da atuação de elementais sem inteligência e de cascas, ou sombras astrais, privadas de alma e de consciência.”
(p. 307, edição inglesa)

Aqui ela aponta que, mesmo quando há fenômenos reais, eles raramente envolvem o verdadeiro Eu superior dos mortos.

Em A Chave para a Teosofia (The Key to Theosophy)

No diálogo com o estudante, Blavatsky explica:

“O espiritualismo estuda o espírito, a alma e as leis ocultas que governam o universo; o espiritismo se preocupa apenas com manifestações e fenômenos, nem sempre confiáveis ou úteis.”

Ela enfatiza que a teosofia vê o espiritismo como apenas um fragmento de um sistema maior, muitas vezes perigoso por ignorar as leis ocultas que regulam a mediunidade.

A Chave para a Teosofia (1889), Capítulo VIII – O que é o Espiritismo?

“O verdadeiro espiritualismo é uma filosofia que investiga as leis ocultas que regem a alma e o universo, enquanto o espiritismo se contenta com a comunicação mediúnica, frequentemente enganosa e perigosa.”
(p. 225, edição inglesa)

Neste capítulo inteiro, Blavatsky dedica-se a diferenciar os dois termos de modo didático e acessível.

Glossário Teosófico (1892)

“Espiritualismo — a crença na comunicação com os espíritos dos mortos. O termo é frequentemente confundido com Espiritismo. O verdadeiro espiritualismo é o reconhecimento da natureza espiritual do homem e do universo. Espiritismo, como praticado no Ocidente, ocupa-se mais de fenômenos e comunicações com cascas astrais.”
(ver verbete “Espiritualismo”)

Blavatsky sintetiza

A diferença fundamental para Blavatsky:

  • O espiritualismo busca a elevação da alma e o contato com o Eu Superior.

  • O espiritismo busca manifestações de espíritos, mas na prática, com frequência se limita ao plano astral e suas ilusões.