A controvérsia entre Helena P. Blavatsky e o Abade Roca, publicada em 1888 na revista Le Lotus, gira em torno da interpretação espiritual e esotérica do cristianismo e das diferenças filosóficas entre a Teosofia e a teologia católica. A discussão emerge após o Abade responder ao artigo de Blavatsky sobre esoterismo cristão, na qual ele tenta conciliar as tradições cristãs e a sabedoria dos Mahâtmas, mestres espirituais da Teosofia.
Blavatsky rebate as afirmações do Abade Roca em um tom crítico, acusando-o de deturpar tanto a essência do esoterismo quanto de mostrar uma compreensão limitada do budismo e do ocultismo. Ela sustenta que o “Cristo” da Igreja é uma invenção posterior, uma figura alegórica e simbólica que foi mal interpretada e antropomorfizada pela tradição eclesiástica. Blavatsky rejeita a ideia de um Cristo como figura histórica, sugerindo que ele é uma personificação dos princípios universais presentes nas religiões antigas.
Por outro lado, o Abade Roca enfatiza a singularidade e superioridade do cristianismo e de Jesus Cristo, atribuindo-lhe a plenitude da verdade divina e o poder redentor. Ele argumenta que, embora admire a sabedoria oriental, o verdadeiro esoterismo encontra-se preservado na mensagem de Cristo e nos ensinamentos cristãos, apesar das corrupções na Igreja. Sua intenção é mostrar que o cristianismo e os ensinamentos dos Mahâtmas têm pontos em comum, mas apenas dentro dos limites de sua interpretação cristã.
A controvérsia revela uma colisão de visões. Blavatsky representa um pensamento universalista e esotérico, recusando as doutrinas religiosas dogmáticas em favor de uma síntese espiritual que transcende tradições particulares. Roca, por outro lado, tenta reinterpretar os ensinamentos cristãos em chave esotérica, mas permanece ligado às fundações e dogmas de sua fé.
Essa troca de cartas reflete o encontro entre o pensamento esotérico oriental e o cristianismo ocidental, expondo o atrito inevitável entre a busca teosófica por uma verdade universal e a crença cristã na exclusividade da revelação divina em Cristo.
