[Introdução] [Como usar a coleção] [Volumes] [Textos Traduzidos]
[Boris de Zirkoff] [Linha do tempo] [Resenhas e Comentários]

[Este Prefácio aplica-se a toda a edição dos Collected Writings (Escritos Compilados) de H. P. Blavatsky, e não apenas ao presente Volume. Juntamente com os Agradecimentos que se seguem, foi publicado pela primeira vez no Volume V da presente Série, em 1950.]

I

Os escritos de H. P. Blavatsky, a principal Fundadora do Movimento Teosófico moderno, se tornam a cada dia mais amplamente conhecidos.

Constituem em sua totalidade um dos mais impressionantes produtos da mente humana criativa. Considerando sua inigualável erudição, sua natureza profética e sua profundidade espiritual, devem ser classificados, por amigos e inimigos igualmente, entre os inexplicáveis fenômenos da época. Mesmo uma pesquisa acusatória destes escritos desvenda seu caráter monumental.

Os mais conhecidos entre eles são, naturalmente, os que apareceram na forma de livros e já tiveram várias edições: Ísis sem Véu(Nova Iorque, 1877), A Doutrina Secreta (Londres e Nova Iorque, 1888), A Chave para a Teosofia (Londres, 1889), A Voz do Silêncio(Londres e Nova Iorque, 1889), Transactions of the Blavatsky Lodge (Londres e Nova Iorque, 1890 e 1891), Gems from the East(Londres, 1890); e os publicados postumamente: Glossário Teosófico (Londres e Nova Iorque, 1892), Nightmare Tales (Londres e Nova Iorque, 1892) e From the Caves and Jungles of Hindustan (Londres, Nova Iorque e Madras, 1892).

No entanto, o público em geral, assim como muitos estudantes teosóficos de hoje em dia, mal tem consciência do fato de que a partir de 1874 até o final da vida H. P. Blavatsky escreveu incessantemente para uma ampla gama de jornais e revistas e de que o volume combinado destes escritos espalhados excede até mesmo sua volumosa produção na forma de livros.
Os primeiros artigos de H. P. B. foram polêmicos em sua natureza e com estilo mordaz. Foram publicados nos mais conhecidos jornais espíritas[1] da época, como Banner of Light (Boston, Mass.), Spiritual Scientist (Boston, Mass.), Religio-Philosophical Journal (Chicago, Ill.), The Spiritualist (Londres), La Revue Spirite (Paris). Simultaneamente, ela escreveu fascinantes histórias ocultas para alguns dos principais jornais estadunidenses, incluindo The World, The Sun e Daily Graphic, todos de Nova Iorque.

Depois que ela foi para a Índia, em 1879, contribuiu com o Indian Spectator, The Deccan Star, Bombay Gazette, The Pionner, Amrita Bazaar Pâtrika e outros jornais.

Por mais de sete anos, a saber, durante o período de 1879-1886, ela escreveu várias histórias para o conhecido jornal russo Moskovskiya Vedomosty (Moscou) e o célebre periódico Russkiy Vestnik (Moscou), bem como para jornais de menor circulação, como o Pravda (Odessa), Tiflisskiy Vetnik (Tiflis), Rebus (São Petersburgo) e outros.

Depois de fundar sua primeira revista teosófica, The Theosophist (Bombaim e Madras), em outubro de 1879, ela verteu em suas páginas uma quantidade enorme de valiosos ensinamentos, que continuou a oferecer mais tarde nas páginas de sua revista de Londres, Lucifer, na revista de vida curta Revue Théosophique, de Paris, e na The Path de Nova Iorque.
Ao mesmo tempo em que dava conta desta tremenda obra literária, ela encontrava tempo para dedicar-se a discussões polêmicas com alguns escritores e eruditos nas páginas de outros periódicos, sobretudo o Bulletin Mensuel da Sociedade de Estudos Psicológicos, de Paris, e o Le Lotus (Paris). Além disso, ela escreveu vários panfletos e Cartas Abertas, publicados separadamente, em várias ocasiões.

Nesta pesquisa geral não mais que mera menção pode ser feita a sua volumosa correspondência, muitas partes da qual contêm ensinamentos valiosos, e a suas Instruções privadas, que ela ministrou depois de 1888 aos membros da Seção Esotérica.

Depois de 25 anos de pesquisas intermitentes, os artigos escritos por H. P. B. em inglês, francês, russo e italiano podem ser estimados em aproximadamente mil. De especial interesse para os leitores é o fato de que um número considerável de seus ensaios em francês e russo, contendo, em alguns casos, ensinamentos não transmitidos em qualquer outro idioma, estão agora pela primeira vez disponíveis em inglês[2].

II

Por muitos anos os estudantes de Filosofia Esotérica têm esperado a publicação final dos escritos de H. P. Blavatsky em uma coleção e forma conveniente. Espera-se agora que este desejo possa ser realizado com a publicação da presente série de volumes. Estes constituem uma edição uniforme da inteira produção literária da Grande Teósofa, tanto quanto pode ser verificado depois de anos de esforços de pesquisa em todo o mundo. Estes escritos estão organizados em ordem estritamente cronológica, de acordo com a data de sua publicação original nos vários jornais e revistas e outros periódicos, ou de sua aparição em forma de livro ou panfleto. Os estudantes estão, pois, em uma posição para remontar ao desenvolvimento progressivo da missão de H. P. B. e ver o método que ela usou na gradual apresentação dos ensinamentos da Antiga Sabedoria, começando com seu primeiro artigo em 1874. Em alguns poucos exemplos um artigo ou dois aparecem fora da sequência cronológica, porque existem provas convincentes de que foram escritos em data muito anterior e devem ter ficado sem serem impressos por um longo tempo. Tais artigos pertencem a um período anterior à data de sua publicação de fato e foram colocados de acordo.

A menos que indicado, todos os escritos foram copiados verbatim et litteratim diretamente das fontes originais. Em alguns poucos casos, quando tal fonte era desconhecida ou, se conhecida, inteiramente inacessível, artigos foram copiados de outras publicações em que foram impressas, aparentemente de fontes originais, muitos anos antes.

Não houve edição de modo algum do estilo literário de H. P. B., seja da gramática ou da ortografia. Evidentes erros tipográficos, entretanto, foram devidamente corrigidos. Sua própria grafia de termos técnicos em sânscrito e nomes próprios foi preservada. Não houve tentativa de introduzir qualquer uniformidade ou consistência nestes particulares. Entretanto, a grafia sistêmica correta de todos os termos técnicos orientais e nomes próprios, de acordo com os padrões escolásticos de hoje, é usada nas traduções para o inglês dos originais em francês e russo, assim como no Índice onde aparecem entre colchetes imediatamente depois de tais termos ou nomes.[3]

Foi encetado um esforço sistemático para verificar as muitas citações introduzidas por H. P. B. de várias obras, e todas as referências foram cuidadosamente verificadas. Em cada caso fontes originais foram consultadas para esta verificação, e se quaisquer discrepâncias com o texto original fossem encontradas, estas foram corrigidas. Muitos dos escritos citados puderam ser consultados apenas em instituições grandes como o Museu Britânico de Londres, a Biblioteca Nacional de Paris, a Livraria do Congresso, de Washington, D.C., e a Livraria Estatal Lenine de Moscou. Em alguns casos obras citadas permaneceram sem serem encontradas. Nenhuma tentativa foi feita para verificar citações de jornais correntes, uma vez que a natureza transitória do material usado não justificava o esforço.

Ao longo do texto, encontram-se muitas notas de rodapé assinadas “Ed.”, “Editor”, Ed. Theos.” Ou “Editor, The Theosophist”; e também notas de rodapé não assinadas. Deve-se lembrar distintamente que todas estas notas de rodapé são da própria H. P. B., e nãodo Compilador dos presentes volumes.

Todo o material acrescentado pelo Compilador – sejam como notas de rodapé ou comentários explicativos apensos a certos artigos – está entre colchetes e assinado “Compilador”. Óbvias explicações editoriais ou sumários precedendo artigos ou apresentando comentários de H. P. B. são meramente colocados entre colchetes.

Ocasionalmente, aparecem breves sentenças entre colchetes, seja no corpo principal do texto ou nas próprias notas de rodapé de H. P. B. Estes comentários entre colchetes são, evidentemente, da própria H. P. B., embora a razão para tal uso não seja muito aparente.

Em muito poucos exemplos, autoevidentes, o Compilador adicionou entre colchetes uma palavra ou dígito obviamente faltantes, para completar o significado da frase.

O texto de H. P. B. é seguido de um Apêndice que consiste em três seções:

(a) Bibliografia de Obras Orientais que provê informações concisas com relação às edições mais conhecidas das Sagradas Escrituras e outros escritos orientais citados ou referidos por H. P. B.

(b) Bibliografia Geral onde podem ser encontrados, à parte dos particulares costumeiros com relação a todas as obras citadas ou referidas, dados biográficos sucintos concernentes a autores menos conhecidos, eruditos e figuras públicas mencionados por H. P. B. no texto ou de cujos escritos ela cita. Acreditou-se ser de valor para o estudante dispor destas informações coletadas, que não são facilmente obteníveis.

(c) Índice de assuntos-matérias.
Seguindo o Prefácio, uma breve pesquisa histórica será encontrada na forma de Pesquisa Cronológica abrangendo dados plenamente documentados relacionados às vicissitudes de H. P. B. e do cel. Henry S. Olcott, bem como os principais acontecimentos da história do Movimento Teosófico, dentro do período coberto pelo material contido em qualquer volume da Série.

III

A maioria dos artigos escritos por H. P. Blavatsky, tanto para revistas quanto para jornais, são assinados por ela, seja com seu próprio nome, seja com seus bastante infrequentes pseudônimos, tais como Hadji Mora, Râdhâ-Bai, Sañjñâ, “Adversário” e outros.

Há, entretanto, um grande número de artigos não assinados, tanto em jornais teosóficos como em outros lugares. Alguns destes foram incluídos porque um estudo cuidadoso por vários estudantes bastante familiarizados com o estilo literário característico de H. P. B., suas conhecidas peculiaridades de expressão e seu frequente uso de idioma estrangeiro, mostrou serem da pena de H. P. B., mesmo que provas irrefutáveis não possam ser apresentadas. Outros artigos não assinados são mencionados em livros teosóficos, memórias e panfletos dos primeiros tempos como sendo de H. P. B. Em outros casos ainda, recortes de tais artigos foram colados por H. P. B. em seus muitos Álbuns de Recortes (agora nos Arquivos de Adyar), com anotações feitas à caneta estabelecendo sua autoria. Vários artigos são conhecidos como tendo sido produzidos por outros escritores, que foram, no entanto, certamente corrigidos por H. P. B., ou ela lhes acrescentou algo, ou foram possivelmente escritos por eles sob sua mais ou menos direta inspiração. Estes foram incluídos com comentários apropriados.

Um problema intrigante apresenta-se com relação aos escritos de H. P. B. do qual o leitor casual provavelmente não tem consciência. É o fato de que H. P. B. muitas vezes agia como amanuense de seus Superiores na Hierarquia Oculta. Às vezes, passagens inteiras eram ditadas para ela por seu Instrutor ou outros Adeptos e Chelas avançados. Estas passagens são, não obstante, completamente tingidas com as próprias óbvias peculiaridades de seu estilo inimitável, e estão muitas vezes entremeadas com comentários definitivamente advindos de sua própria mente. Este inteiro assunto envolve mistérios bastante recônditos ligados com a transmissão de comunicações ocultas de Instrutores para discípulos.

Por ocasião de seu primeiro contato com os Mestres, por intermédio de H. P. B., A. P. Sinnett buscava uma explicação para o processo acima mencionado e recebeu a seguinte resposta do Mestre K. H.:

“. . . Além disso, tenha em mente que essas minhas cartas não são escritas e sim impressas ou precipitadas e depois todos os erros são corrigidos. . .

“. . . Devo pensar bem, fotografando cuidadosamente cada palavra e frase no meu cérebro antes que possa ser repetida por “precipitação”. Assim como a fixação das imagens formadas em uma câmara sobre superfícies quimicamente preparadas requer um prévio ajuste do foco do objeto a ser representado, pois de outra maneira – como frequentemente se encontra em más fotografias – as pernas de quem está sentado aparecem fora de proporção em relação à cabeça, e assim por diante, do mesmo modo temos primeiro de arrumar as nossas frases e imprimir em nossas mentes cada letra que irá aparecer no papel, antes que estejam prontas para serem lidas. No momento isto é tudo o que posso contar a você. Quando a ciência houver descoberto mais sobre o mistério da litofilia (ou lithobiblion) e sobre o modo como a impressão de folhas ocorre originalmente em pedras, então serei capaz de fazê-lo compreender melhor o processo. Mas você deve saber e lembrar uma coisa: nós apenas seguimos e humildemente copiamos a natureza em funcionamento.”[4]

Em um artigo intitulado “Precipitação”, H. P. B., referindo-se diretamente à passagem citada acima, escreve o seguinte:
“Desde que foi escrito o acima, os Mestres tiveram o prazer de permitir que o véu se levantasse um pouquinho mais, e o modus operandi pode assim ser explicado agora mais plenamente para o leigo . . .

“. . . O trabalho de escrever as cartas em questão é levado a cabo por uma espécie de telegrafia psicológica; os Mahatmas muito raramente escrevem as cartas da maneira ordinária. Uma ligação eletromagnética, por assim dizer, existe no plano psicológico entre um Mahatma e seus chelas, um dos quais age como seu amanuense. Quando o Mestre quer que uma carta seja escrita desta maneira, ele chama a atenção do chela, a quem seleciona para a tarefa, tocando um sino astral (ouvido por tantos de nossos Membros e outros) perto dele da mesma maneira que o funcionário de telégrafo despacha sinais para o funcionário que os recebe antes de enviar a mensagem. Os pensamentos que chegam na mente do Mahatma são então revestidos de palavras, pronunciados mentalmente, e forçados ao longo das correntes astrais que ele envia para o aluno, de forma a impingir-se no cérebro deste. Elas surgem então mediante correntes nervosas nas palmas da mão e pontas dos dedos, que repousam sobre um pedaço de papel preparado magneticamente. À medida que as ondas-pensamento são assim impressas no papel, os materiais são retirados do oceano de âkas para ele (permeando cada átomo do universo sensório), por um processo oculto, inadequado de ser descrito aqui, e marcas permanentes são deixadas.
“A partir disso, fica abundantemente claro que o sucesso de tal escrita como descrita acima depende principalmente destas coisas: (1) A força e a clareza com que os pensamentos são propalados, e (2) a liberdade do cérebro receptor de distúrbios de toda descrição. O caso com o telégrafo elétrico ordinário é exatamente o mesmo. Se, por uma razão ou outra, a bateria que supre a força elétrica cai abaixo da força necessária em qualquer linha telegráfica ou há um desarranjo no aparato receptor, a mensagem transmitida se torna mutilada ou imperfeitamente legível. . . . Tais imprecisões, de fato, com muita frequência aparecem, como pode-se perceber a partir do que diz o Mahatma no extrato acima. ‘Tenha em mente’, diz Ele, ‘que estas minhas cartas não são escritas, mas impressas ou precipitadas e então todos os erros corrigidos’. Voltando às fontes de erro na precipitação. Ao lembrarmos das circunstâncias sob as quais erros surgem nos telegramas, vimos que se um Mahatma de algum modo fica exausto ou permite que seus pensamentos vagueiem durante o processo ou falha em comandar a intensidade necessária nas correntes astrais ao longo das quais seus pensamentos são projetados, ou a atenção distraída do aluno produz distúrbios em seu cérebro e centros nervosos, o sucesso do processo recebe muita interferência.”[5]

A este excerto podem ser acrescentadas as palavras de H. P. B. que aparecem em seu artigo singular intitulado “Meus Livros”, publicado em Lucifer no mês de seu falecimento.

“. . . Espaço e distância não existem para o pensamento; e se duas pessoas estão em perfeito e mútuo rapport psicomagnético e, das duas, uma é um grande Adepto em Ciências Ocultas, então a transferência de pensamentos e o ditado de páginas inteiras se tornam tão fáceis e compreensíveis à distância de dez mil quilômetros quanto a transferência de duas palavras numa sala.”[6]

É, naturalmente, autoevidente que se tais passagens ditadas, longas ou curtas, tivessem de ser excluídas de seus Escritos Compilados, seria necessário excluir também grandes porções tanto de A Doutrina Secreta quanto de Ísis sem Véu, como sendo o resultado de ditado direto a H. P. B. por um ou mais Adeptos, ou material precipitado por meios ocultos para ela usar, se quisesse. Tal atitude com relação aos escritos de H. P. B. dificilmente teria consistência com o bom senso ou sua própria visão das coisas, uma vez que ela muito certamente não hesitou em anexar seu nome à maior parte do material que foi ditado a ela por vários altos Ocultistas.

IV

Uma pesquisa histórica dos vários passos para compilar os volumosos escritos de H. P. B. deve agora ser dada.
Logo depois da morte de H. P. B. foi feita uma tentativa para reunir e publicar pelo menos alguns de seus escritos. Em 1891, foram passadas instruções para todas as Seções da Sociedade Teosófica de que um “Fundo Memorial H. P. B.” fosse instituído com o propósito de publicar tais escritos de sua pena que promovessem “aquela união íntima entre a vida e o pensamento do Oriente e do Ocidente, a que sua vida foi devotada”.

Em 1895, apareceu impresso o Volume I da “Série Fundo Memorial H. P. B.”, com o título de A Modern Panarion: A Collection of Fugitive Fragments from the pen of H. P. Blavatsky (Londres, Nova Iorque e Madras, 1895, 504 pp.), contendo uma seleção dos artigos de H. P. B. nos jornais espíritas e algumas de suas primeiras contribuições ao The Theosophist. Foi impresso na H. P. B. Press, 42 Henry Street, Regent’s Park, Londres, N.W., impressores da Sociedade Teosófica. Nenhum volume adicional se sabe ter sido publicado, embora parecesse que outros volumes desta série estivessem planejados.
A compilação de material para uma edição uniforme dos escritos de H. P. Blavatsky foi iniciada pelo abaixo assinado em 1924, enquanto residia na sede da Sociedade Teosófica de Point Loma, na administração de Katherine Tingley. Por aproximadamente seis anos este permaneceu um projeto particular do Compilador. Cerca de 1.500 páginas de material datilografado haviam sido coletadas, copiadas e de algum modo classificadas. Muitas fontes estrangeiras de informações foram consultadas quanto aos dados corretos, e grande quantidade de trabalho preliminar feito.

Logo no estágio formativo do plano foi descoberto que seria essencial um estudo analítico dos primeiros anos do Movimento Teosófico moderno, não apenas como meio de descobrir quais publicações haviam de fato publicado artigos da pena de H. P. B., mas também como forma de obter informações para perseguir toda e qualquer pista disponível quanto aos dados de publicações que muitas vezes haviam sido erroneamente citadas.

Nessa época iniciou-se uma extensa correspondência internacional com indivíduos e instituições na esperança de se conseguir as informações necessárias. No final do verão de 1929, a maior parte do trabalho havia sido concluída no que tange ao período inicial, de 1874-79.

Em agosto de 1929, o Dr. Gottfried de Purucker, então presidente da Sociedade Teosófica de Point Loma, foi procurado com relação ao plano de publicar uma edição uniforme dos escritos de H. P. B. A ideia foi imediatamente aceita, e um pequeno comitê formado para ajudar com a preparação do material. Tencionava-se desde o início começar a publicação em 1931, como um tributo a H. P. B. no centenário de seu aniversário, desde que uma editora adequada fosse encontrada.
Depois de vários possíveis publicadores serem considerados, foi sugerido pelo falecido Dr. Henry T. Edge – um aluno pessoal de H. P. Blavatsky dos dias de Londres – que procurássemos a Rider and Co., de Londres.

Em 27 de fevereiro de 1930, A. Trevor Barker, de Londres, transcritor e compilador das Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett, escreveu para o Dr. G. de Purucker e, entre outras coisas, falou que ele e seu amigo, Ronald A. V. Morris, haviam trabalhado por algum tempo em um plano de compilar artigos de revistas de H. P. B. a serem publicados num futuro próximo. Estreito contato foi imediatamente estabelecido entre estes cavalheiros e o comitê de Point Loma. Enviaram inicialmente uma lista completa de seu material e, em julho de 1930, o próprio material coletado, que consistia principalmente de artigos do The Theosophist e Lucifer. Embora duplicando em grande medida o que já havia sido compilado destas revistas, seu material continha também vários itens valiosos de outras fontes. Em maio de 1930, A. Trevor Barker também sugeriu a Rider and Co., de Londres, como possível editora.

Nesse meio tempo, a saber, em 1o de abril de 1930, foi feita a sugestão pelo Compilador de que todo o trabalho se tornasse um Projeto Teosófico Interorganizacional, em que todas as Sociedades Teosóficas pudessem colaborar. Já que esta ideia se encaixava no Movimento de Fraternização inaugurado pelo Dr. G. de Purucker na época, foi aceita de imediato e passos foram tomados para assegurar a cooperação de outras Sociedades Teosóficas.

Em 24 de abril de 1930, foi escrita uma carta para a Dra. Annie Besant, presidente da Sociedade Teosófica (Adyar), solicitando colaboração na compilação da Série prestes a aparecer. Seu endosso foi garantido por intermédio de Lars Eek, na Convenção Teosófica ocorrida em Genebra, Suíça, de 28 de junho a 1o de julho de 1930, presidida por ela.
Depois de um período de correspondência preliminar, foi criada uma equipe de trabalho literária construtiva e frutífera com pessoas da sede em Adyar. A cortês permissão da Dra. Annie Besant de utilizar os Arquivos da Sociedade Teosófica em Adyar e a colaboração dedicada de C. Jinarâjadâsa, A. J. Hamerster, Mary K. Neff, N. Sri Ram e outros, por vários anos, foram fatores de primordial importância para o sucesso deste esforço.

O auxílio de vários outros indivíduos de diferentes partes do mundo foi aceito, e o trabalho de compilação avançou de forma mais permanente com base no Projeto Teosófico Interorganizacional, no qual cooperaram muitas pessoas de várias nacionalidades e afiliações teosóficas.

Conquanto o trabalho prosseguisse com relação às várias partes da massa de material já disponível, o principal esforço se deu para concluir o Volume I da Série, que deveria cobrir o período de 1874-1879. Este Volume foi, em alguns aspectos, o mais difícil de produzir, devido ao fato de que o material para ele se encontrava espalhado por vários continentes e muitas vezes em jornais e periódicos praticamente inacessíveis da época.

O Volume I ficou pronto para impressão no verão de 1931, e foi então enviado para a Rider and Co., de Londres, com quem um contrato foi assinado. Devido a vários atrasos com relação aos quais o Compilador não tinha controle, não foi para impressão senão em agosto de 1932, sendo finalmente publicado na primeira parte de 1933, com o título de The Complete Works of H. P. Blavatsky[7].

Foi estipulado pela editora que o nome de A. Trevor Barker deveria aparecer na página frontal do Volume, como editor responsável, devido a sua reputação como editor das Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett e The Letters of H. P. Blavatsky to A. P. Sinnett[8]. Concordou-se com isso como uma finalidade técnica, com uma intenção tão somente comercial.

O Volume II da Série também foi publicado em 1933; o Volume III apareceu em 1935, e o Volume IV em 1936. No mesmo ano, a Rider and Co. publicou uma edição fac-símile de Ísis sem Véu, com os dois volumes numa só capa, e uniforme com os precedentes primeiros quatro volumes das Obras Completas.

Novos inesperados atrasos ocorreram em 1937, e então eclodiu a crise mundial resultante da II Guerra Mundial que interrompeu a continuidade da Série. Durante a “blitz” de Londres, os escritórios da Rider and Co. e de outras editoras na Paternoster Row foram destruídos. Os clichês dos quatro volumes já publicados ficaram arruinados (assim como os clichês das Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett e outros trabalhos) e, como a edição era pequena, estes volumes não estavam mais disponíveis e assim permaneceram por mais quatorze anos.

Contudo, durante o período da Guerra Mundial, o trabalho de pesquisa e preparação de material para publicação futura continuou ininterruptamente, e muito material novo foi descoberto. Artigos muito raros escritos por H. P. B. em francês foram inexplicavelmente encontrados e prontamente traduzidos. Uma pesquisa completa foi feita de todos os escritos conhecidos em seu nativo russo e novos itens trazidos à luz. Esta produção literária em russo foi obtida, em sua inteireza, diretamente das fontes originais, os mais raros artigos sendo fornecidos sem ônus pela Biblioteca Estatal Lenine, de Moscou.

A dureza da situação econômica na Inglaterra, tanto durante quanto depois da II Guerra Mundial, tornou impossível para a Rider and Co. retomar o trabalho da Série original. Nesse meio tempo, a demanda pelos escritos de H. P. Blavatsky aumentava constantemente, e um número crescente de pessoas buscava pela publicação de uma edição estadunidense de suas Obras Compiladas. Para satisfazer esta crescente demanda, está sendo lançada a presente edição. Sua publicação no septuagésimo quinto ano do moderno Movimento Teosófico preenche uma necessidade há muito sentida no Continente Norte-americano, onde a pedra angular da Sociedade Teosófica original foi lançada em 1875.

Os escritos de H. P. Blavatsky são únicos, falam mais alto do que qualquer comentário humano, e a última prova dos ensinamentos que contêm repousa na própria discípula – quando seu coração está sintonizado com a harmonia cósmica, eles se revelam diante dos olhos da mente. Como todos os escritos místicos ao longo das idades, escondem muito mais do que revelam, e o estudante intuitivo descobre neles exatamente aquilo que é capaz de apreender – nada mais nada menos.
Imutáveis diante do tempo, impassíveis diante da fantasmagoria do carro alegórico do mundo, inatingíveis pela crítica mordaz, imaculados diante das vituperações de mentes triviais e dogmáticas, estes escritos se postam hoje como o fizeram no dia de sua primeira aparição, como uma rocha majestosa no meio das cristas nevoentas do mar ingovernável. Seu toque de clarim ressoa como outrora, e milhares de corações famintos, homens e mulheres confusos e desiludidos, buscadores da verdade e do conhecimento, encontram a entrada para uma vida mais grandiosa nos princípios duradouros do pensamento contido na herança literária de H. P. B.

Ela desafiou o sectarismo religioso de seus dias, com seu ritualismo vistoso e a letra morta do culto ortodoxo. Ela desafiou dogmas científicos entrincheirados desenvolvidos por mentes que viam na Natureza tão somente um agregado fortuito de átomos sem vida governados pelo mero acaso. O poder regenerativo de sua Mensagem quebrou a casca constritiva de uma teologia moribunda, varreu as disputas vazias dos tecelões de frases e deu xeque-mate ao avanço de falácias científicas.
Hoje esta mensagem se espalha amplamente sobre a Terra como a enchente primaveril de um rio caudaloso. Os maiores pensadores do dia vocalizam às vezes ideias genuinamente teosóficas, expressas muitas vezes nas próprias palavras usadas pela própria H. P. B., e testemunhamos diariamente homens voltarem a mente para as câmaras do tesouro do Conhecimento Esotérico Trans-himalaico que ela nos revelou.

Recomendamos seus escritos ao peregrino fatigado e ao buscador de realidades espirituais permanentes. Eles contêm a resposta para muitos problemas que nos deixam perplexos. Abrem de par em par portais nunca antes sonhados, revelando panoramas de esplendor cósmico e inspiração duradoura. Trazem nova esperança e coragem para o tímido, porém sincero estudante. São um conforto e um bastão, bem como um Guia e um Instrutor, para aqueles que estão já trilhando a antiga Senda. Quanto àqueles poucos que estão na vanguarda da humanidade, valentemente escalando os passos solitários que levam aos Portais de Ouro, estes escritos dão pistas do conhecimento secreto, capacitando-os a levantar a pesada tranca que deve ser erguida antes que os Portões admitam o peregrino na terra do Eterno Amanhecer.

Notas
[1] Para preservar a precisão dos termos usados por Blavatsky, adotamos os seguintes critérios: Spiritualist é traduzido como espírita quando se refere ao movimento mediúnico anglo-americano; como espiritualista quando expressa uma visão metafísica ou oposição ao materialismo. Spiritist é traduzido como espiritista quando empregado em referência ao sistema de Allan Kardec. (N. T.)

[2] E agora em português. (N. T.)

[3] Ver Nota explicativa na página XXXX.

[4] A.P. Sinnett. The Occult World (ed. orig. Londres: Trübner e Co., 1881), pp. 143-44.* Também Mahatma Letters, VI, com pequenas variações.**

*  O Mundo Oculto, publicado pela Editora Teosófica. (N. Ed.)

** Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett, Volume I, Carta no 10 (ML-5) e Carta no 12 (ML-6), publicadas pela Editora Teosófica. (N. Ed.)

[5] The Theosophist, Vol. V, nos 3-4 (51-52), dez-jan, 1883-84, p. 64.

[6] Lucifer, Londres, Vol. VIII, no 45, 15 de maio de 1891, p. 241-247.

[7] Obras Completas de H. P. Blavatsky. (N. T.)

[8] Cartas de H. P. Blavatsky para A. P. Sinnett. (N. T.)

ESCRITOS COMPILADOS DE H. P. BLAVATSKY

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